o pauloleminski
é um cachorro louco
que deve ser morto
a pau a pedra
a fogo a pique
senão é bem capaz
o filhadaputa
de fazer chover
em nosso piquenique
(Paulo Leminski, Não fosse isso)
O poeta Paulo Leminski é um grande poeta. O Brasil, um país muito pequeno. Leminski exerceu algumas atividades paralelas ao seu trabalho de poeta, que agora são reportadas nos jornais como dados biográficos. Isso não importa. Importa repetir o que ele mesmo dizia sobre o fato de ser um poeta da língua portuguesa, algo como um diálogo entre um mundo (a poesia brasileira) e um surdo (o mundo que, historicamente, não sabe e não pode ouvi-la).O Brasil é o país ridículo onde a música popular, à falta de condições mínimas de se pôr em seu devido lugar as linguagens redundantes, é encarada com a atenção que, em muitos países, é, ou era até bem pouco tempo, devida à poesia. Leminski não pensava assim, absolutamente. Compôs sozinho ou em parceria muitas canções, uma delas, comigo. Não há paradoxo algum aqui. O problema, é óbvio, não está na música popular ou na televisão, na prosa fácil dos amados pelas editoras ou no endeusamento idiota dos oligofrênicos de ocasião do show business,mas na grotesca miséria cultural que, inescapavelmente, faz com quer muito do melhor da poesia brasileira tenha, hoje, aos olhos opacos de uma boa parte do público, algo de idiossincrático, de excêntrico, de quixotesco, de incompreensível ou de dispensável. Num país de analfabetos, é óbvio que cantores e compositores de 12 músicas (= 1 LP ao ano) mereçam mais atenção. Paulo Leminski, ao contrário, era um homem sério. Alguém com quem, durante uma noite inteira, era possível conversar sobre assuntos que, nem de longe, tinham algo a ver com novelas de TV ou mesmo com o Brasil, essa fazenda seresteira. Dito assim parece, mais uma vez, óbvio. Não para mim, já que minha geração é uma espécie de piada sem graça e gaguejante, ainda que consiga gerar algum dinheiro na TV ou em shows de rock. Paulo Leminski, ao contrário, era um homem engraçado. Fazia piadas verbais como uma metralhadora. Ou emudecida por alguns segundos, com um olhar feroz, quando um absurdo qualquer lhe chegava aos ouvidos. Por essas e outras, insisto: fala-se muito seriamente e sem nenhum pudor, nas ruas e nos jornais, que a música popular é a linguagem que mais tem algo a dizer por aqui. Um dos que dizia isso era Paulo Leminski. Mas Leminski, pasmem os bebês babões de todas as idades da mídia e da moda, era um homem com visão histórica. Fato: a música popular tem algo a dizer por aqui. Mas não porque tenha atingido, nesse buraco infecto da história e da geografia do mundo chamado Brasil, um nível de qualidade estética e informacional acima do que é comum para tal linguagem em outros países. Apenas porque o Brasil, como o mundo é surdo a uma língua que não conhece e com a qual não se importa, também é surdo a vozes mais elaboradas, como a da poesia de Paulo Leminski. Não que Leminski fosse desconhecido, absolutamente. Mas é conhecido e lido apenas na medida ínfima em que um poeta contemporâneo, no Brasil, pode sê-lo. Numa faixa muito menor de penetração que outras atividades gloriosas como a prosa redundante, a mpb melorréica ou o rock balbuciante, por exemplo. Azar de um país de imbecis.